Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis

Cadeira nº 21    

CRCMT 5207/O-8

Frequentou o curso de contabilidade da Escola Técnica de Comércio de Cuiabá e mais tarde tornou-se cirurgião-dentista pela Faculdade Fluminense de Medicina e oficial-dentista pela Escola de Saúde do Exército. Estudou economia na Faculdade de Ciências Econômicas de Mato Grosso e fez estágio na Universidade de San Diego. Dirigiu a Escola Técnica Federal de Mato Grosso e foi diretor financeiro das Centrais Elétricas Matogrossenses (CEMAT). Eleito vereador em Cuiabá e deputado estadual em 1979/1983, foi também presidente do Mixto Esporte Clube. Eleito vice-prefeito de Cuiabá em 1985, assumiu o cargo titular em 1986-1987 quando Dante de Oliveira (PMDB) ocupou o Ministério da Reforma Agrária no governo José Sarney.
Se o número de cargos públicos pode dar a dimensão do homem público que os ocupou, Estevão Torquato representa um marco na política mato-grossense. Ele não só ocupou diversos e importantes cargos — prefeito, diretor de escola, presidente de clube de futebol, dentista, entre outros —, mas o fez com a naturalidade de quem recebe um presente desejado, mas já esperado. Assim se deu com o homem que tinha como meta executar com fervor cada trabalho a que se propunha fazer.

Nascido em Cuiabá no dia 2 de agosto de 1923, Estevão Torquato da Silva viveu uma infância nem pobre nem rica, feliz. Terminou o ginásio com 17 anos e entrou no 16º BC (Batalhão de Caçadores) como voluntário, para fazer o Curso de Cabo do Exército. Seu desejo era terminar os estudos no Rio de Janeiro, o que acontecia com a maior parte dos filhos da elite da época. Mas seu pai, José Torquato da Silva, advogado provisionado, não tinha condições de lhe financiar os estudos fora do estado, uma vez que tinha mais sete filhos para criar.

Em 1942, Torquato foi promovido a cabo e começou a estudar contabilidade. Nessa época, tornou-se um exímio datilógrafo, o que lhe permitiu ser o assessor do general que presidiu em Mato Grosso a Comissão de Investigação e Sindicância, durante a ditadura militar. A Comissão era responsável por prender e reprimir as pessoas contrárias ao regime. Cabia a Torquato datilografar os relatórios elaborados sobre os presos. Entretanto, Silva Freire e Agrícola Paes de Barros, entre outros presos políticos, reconheceram naquele jovem datilógrafo não um algoz, mas um amigo para as conversas e consolo.

Segundo o professor Aecim Tocantins, Torquato, sempre que podia, solicitava aos seus superiores melhores instalações e condições de higiene para os presos. “Como poderia fazer mal para os meus próprios amigos de infância?”, questiona Torquato.

Depois desse período, Torquato fez um concurso para entrar na Escola de Saúde do Exército, no Rio de Janeiro. Conseguiu passar, como ele mesmo diz, num puro golpe da sorte: havia lido, uma hora antes, um artigo da revista Seleções que falava exatamente sobre o assunto que caiu nas provas. Passou um ano no Rio e voltou de lá, em março de 1952, como subtenente e cirurgião-dentista. Conseguiu que instalassem no 16º BC um consultório odontológico e montou o seu, particular, na rua Cândido Mariano.

No ano de 1967, o recém-reformado tenente-coronel do Exército iniciava sua carreira política. A reforma, que para muitos podia significar a aposentadoria e o desânimo, para ele era o começo de uma vida nova. Começava ali o tempo de se dedicar a um dos assuntos que mais lhe atraía a atenção: sua cidade natal, Cuiabá.

Candidatou-se a vereador pela UDN (União Democrática Nacional). “Para ser eleito, não precisei fazer campanha. Simplesmente telefonei para os muitos amigos que havia cultivado em 43 anos de vida”, diz ele. Participou da fundação, em Mato Grosso, do Partido Popular (PP) que, mais tarde, fundiu-se com o MDB para formar o PMDB (partido do qual foi presidente). Por esta sigla, em 1978, elegeu-se deputado estadual.

Oito anos depois, foi eleito vice-prefeito, na primeira eleição para a prefeitura de Cuiabá, em chapa liderada por Dante de Oliveira. (Antes de 1986, os prefeitos de capitais e de cidades consideradas estratégicas eram indicados pelo governo federal).

Durante o mandato, Torquato assumiu por 13 meses a prefeitura, quando Oliveira foi nomeado, pelo então presidente José Sarney, ministro da Reforma e Desenvolvimento Agrário. A notícia de que teria que assumir a prefeitura de uma hora para outra pegou Torquato de surpresa. Mas ele disse, na época, que quem foi eleito vice deve estar preparado para assumir a qualquer hora. Não sem uma pontinha de medo, assim o fez. “Quando eu era vice-prefeito”, diz, “não havia nada para fazer. Por isso, resolvi andar por toda a cidade de Cuiabá, principalmente pelos distritos mais afastados. Foi isso que me permitiu conhecer todos os problemas da cidade e, quando prefeito, fazer uma boa administração”.

Torquato diz ainda que, pelo fato de estar perto do poder federal, em Brasília, Dante de Oliveira conseguiu recursos extras para a prefeitura. “Conseguimos construir 23 colégios, 19 escolas rurais, 20 postos de saúde, 3 policlínicas e o hospital do Pronto Socorro”, diz Torquato, com orgulho. “Um dos meus maiores sonhos era ser prefeito da Cuiabá que eu tanto amava! E consegui”. Ele lembra também que, nessa gestão peemedebista, Serys Slhessarenko era secretária da Educação e, Wilson Santos, subsecretário de Serviços Públicos.
Depois disso, Torquato não mais se candidatou a cargo político. Foi auditor-chefe da prefeitura nas administrações de José Meirelles e no início da de Roberto França. Quando Dante de Oliveira foi eleito governador do estado, o nomeou chefe do Departamento de Licitação do Prodeagro, cargo que ocupa até hoje.

Paralelamente à vida política, Torquato ocupou, e ainda ocupa, inúmeros cargos, dentre eles dois cuja lembrança ainda lhe deixam emocionado: diretor da Escola Técnica Federal de Cuiabá (ETF) e presidente do Mixto Esporte Clube.

Quando saiu do Exército, deu aulas de Ciências Físicas Naturais e de Biologia na ETF. Dado o seu desempenho como professor, foi nomeado diretor por Jarbas Passarinho, que era o ministro da Educação. Torquato afirma que este é o único cargo que gostaria de voltar a ocupar. Diz ele que nunca irá se esquecer dos dias em que abrigou, dentro da escola, as vítimas de uma das maiores enchentes do rio Cuiabá.

Segundo o professor Aecim Tocantins, “Torquato era sempre convocado para os trabalhos que exigiam seriedade e dignidade”. Assim se deu em 1974, quando José Garcia Neto, recém-eleito governador de Mato Grosso, o convidou para a presidência da Cemat. Torquato lamentou ter que deixar a ETF, sobretudo depois de passar quatro meses nos Estados Unidos visitando escolas profissionalizantes. Seu desejo era aplicar aqui o que havia aprendido durante a viagem.

Mas o coração de mixtense também bate forte dentro do peito de Torquato. A paixão pelo clube começou muito cedo. Ele, de fato, jogou, quando jovem, no time de aspirantes do alvi-negro. Em sua gestão como presidente (ele não se lembra em que ano), o clube sagrou-se campeão estadual. “Hoje dói o coração ver o Mixto perder a sua sede. Se eu fosse um homem são, eu ia reerguer o Mixto!”, diz. Para ele, a volta do público aos estádios mato-grossenses passa, em primeiro lugar, por uma restruturação dentro da Federação de Futebol.

“Sempre leal aos seus princípios e amigos”, nas palavras de Tocantins, Torquato também já foi: presidente do Lions Clube (unidade Centro) e fundador do Lions Clube Cuiabá Norte; diretor-tesoureiro do Clube Náutico; professor de Ciências Contábeis da UFMT; membro do Conselho Diretor do Abrigo Bom Jesus; 2º vice-diretor da Santa Casa de Misericórdia; membro do Conselho da Fundação Dom Aquino Corrêa; e, cargo que ainda ocupa, tesoureiro da Pia União de Santo Antônio, entidade filantrópica de ajuda a famílias pobres.

Nos dias de hoje, Torquato vive entre as lembranças de um passado de muito trabalho e a preocupação com algo que carrega dentro de si e que lhe prende tragicamente ao presente: o câncer de próstata. Recebeu o diagnóstico no ano de 1993. Depois de ficar internado durante um mês, submeteu-se a uma cirurgia no Hospital das Forças Armadas, em Brasília. Não obteve sucesso: a doença voltou e, por causa da metástase, sente dores terríveis nas costas e nos braços.

Em tristeza, para Torquato, o ano de 1993 só não rivalizou com 1995. Nesse ano, perdeu um filho, Luís Antônio, que morreu de parada cardíaca, aos 41 anos. E perdeu a esposa, Bertolina Nascimento da Silva, muito amada. “Completamos 50 anos de casados no dia 1º de abril”, diz Torquato, “três meses depois, ela morreu… me deixou só”.

Torquato vive hoje, como sempre viveu, do salário que recebe, acrescido da aposentadoria do INSS e do Exército. Quando soube que tinha câncer, dividiu suas economias (seis casas em Cuiabá) entre os seis filhos.

Arrependimentos, diz que tem alguns, relacionados às brigas políticas. “Às vezes dizemos algo que não queríamos. Mas para isso existe o sacramento da Penitência, ou Confissão”, afirma.

Muito religioso, acorda cedo todos os dias para ir à Igreja da Boa Morte, onde reza o terço e espera a missa das seis. Vai dirigindo o carro: “é o único horário que dirijo, pois o trânsito é mais tranquilo”.

O resto do dia passa-o no Prodeagro (“para ter com o que me ocupar e não pensar na doença”, diz). Por causa dos fortes remédios que vem tomando, sente muito sono e dorme mais cedo do que gostaria, por volta das 19 horas. Seu plano é, ao final do governo de Dante de Oliveira, passar o dia na Pia União: quer gastar as energias que lhe restam no auxílio a crianças carentes. Cultiva também o sonho de ver os netos chegarem à Faculdade. “Sou como uma folha na mão de Deus”, diz, “estou nas mãos do Pai”.